O produtor e diretor musical Augusto César Graça Mello, conhecido como Guto Graça Mello, faleceu nesta terça-feira (5), no Rio de Janeiro, aos 78 anos. A informação foi confirmada pelo g1. Ele estava internado há mais de um mês no Hospital Barra D’or, na Barra da Tijuca, e sofreu uma parada cardiorrespiratória. Guto deixa a viúva, a atriz Silvia Massari, duas filhas e dois enteados.

A carreira de Guto Graça Mello na música brasileira
Guto Graça Mello produziu mais de 500 discos em cinco décadas de carreira, trabalhando com praticamente todos os grandes nomes da MPB. Seu currículo inclui João Gilberto, Tom Jobim, Elis Regina, Nara Leão, Maria Bethânia, Roberto Carlos, Djavan, Cazuza, Xuxa e até Padre Marcelo Rossi. Em entrevista ao GLOBO em 2024, ele fez uma ressalva: “só o Chico Buarque nunca me chamou”.
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Filho dos atores Stella Graça Mello e Octávio Graça Mello, Guto nasceu em 29 de abril de 1948. Ele abandonou o curso de Arquitetura na UFRJ para se dedicar à música, começando a compor em 1960. Antes de se firmar na televisão, viveu no exterior e fez parte do grupo Vox Populi.
Guto Graça Mello e a criação do tema do Fantástico
Guto Graça Mello entrou para a história da televisão brasileira ao compor o tema original do programa Fantástico. A melodia surgiu na noite de 23 de dezembro de 1972, no silêncio da Maternidade Clara Basbaum, em Botafogo, enquanto ele tocava violão diante do berço da filha recém-nascida. Boni, então diretor geral da Globo, assinou a letra.
Sua trajetória na emissora começou em 1972, como produtor musical do programa Viva Marília, de Marília Pêra. No ano seguinte, assinou sua primeira trilha sonora de novela, Cavalo de Aço, ao lado de Nelson Motta. A partir daí, fez para a Som Livre as trilhas de grandes sucessos como Gabriela, Pecado Capital, Saramandaia e Estúpido Cupido.
O samba eterno de Paulinho da Viola e a aposta em Xuxa
Em Pecado Capital, novela de 1975, Guto Graça Mello encomendou a música tema a Paulinho da Viola. O samba dos versos “dinheiro na mão é vendaval” foi composto em poucas horas. Guto ligou para o cantor pedindo a música para o mesmo dia. Paulinho se assustou, mas os dois sentaram juntos. Guto contou o final imaginado pela autora Janete Clair, no qual o personagem de Francisco Cuoco era alvejado e o dinheiro voava de sua maleta. Paulinho então disse: “Dinheiro na mão é vendaval, né?” A partir daí, compôs tudo, melodia e letra, na frente do produtor.
Guto também foi o responsável por dizer a João Araújo, presidente da Som Livre, que ele tinha a obrigação de gravar um disco da banda do filho, Cazuza, o Barão Vermelho. Outra missão tida como impossível foi transformar a apresentadora infantil Xuxa em cantora. Xuxa veio da Manchete e a Globo fez um contrato que incluía um disco. Em reunião na Som Livre ao lado do então namorado Pelé, ela afirmou que não cantava nada. João Araújo disse a Guto: “se vira”. O produtor conseguiu com Aretuza Garibaldi, assessora de imprensa da gravadora, a música infantil “Quem qué pão”, o primeiro hit de Xuxa, lançado em 1986.
O legado de Guto Graça Mello no cinema e na televisão
Guto Graça Mello deixou os cargos de diretor musical na Globo e na Som Livre em 1989. Nos anos 1980, além de atuar na direção musical dos festivais MPB 80 e MPB Shell, seguiu produzindo trilhas sonoras para programas infantis como Pirlimpimpim, Plunct, Plact, Zuuum e A Turma do Pererê. Também montou as trilhas das minisséries O Tempo e o Vento, composta por Tom Jobim após muita insistência sua, e Tenda dos Milagres, com canções inéditas de Dorival Caymmi e Caetano Veloso.
No cinema, Guto fez trilhas para mais de 30 filmes, incluindo O Beijo no Asfalto (1981), O Cangaceiro Trapalhão (1983), Cazuza O Tempo Não Para (2004) e Se Eu Fosse Você (2006). Na televisão, participou do reality musical Fama e da série Som Brasil. Em setembro de 2026, a Globo Livros pretende lançar sua biografia, intitulada “A MPB que ninguém ouviu”, escrita pelo jornalista Claudio Henrique.
Nas redes sociais, artistas lamentaram a morte do produtor. Maria Bethânia publicou em seu Instagram: “Guto Graça Mello foi um produtor musical fundamental na carreira de Maria Bethânia, produzindo álbuns marcantes como Ciclo (1983) e o disco de sucesso com músicas de Roberto Carlos, As canções que você fez pra mim (1993). O mundo da música deve reverências a ele. Viva Guto Graça Mello!”
